Renata Pallottini , escritora, poeta, educadora
Renata Monachesi Pallottini nasceu em São Paulo em 1931). Poeta, romancista, contista, autora de literatura infantil e juvenil, dramaturga,...
Revista digital de Arte e Cultura
Filosofo, professor, pesquisador e tradutor, Joaquim Brasil Fontes (19392019) foi titular da disciplina Leitura e Produção de Textos na Universidade Estadual de Campinas (SP) e coordenador do GEISHGrupo de Estudo Interdisciplinar em Sexualidade Humana da Unicamp, onde desenvolveu pesquisas sobre erotismo e sexualidade, no horizonte das literaturas clássicas e modernas. Atuou ainda em dois grupos: Poesia da Idade Imperial Romana e Diversidade em Educação e na área de Educação, com ênfase em Literatura e Ensino, Literatura Comparada, Literaturas Clássicas grega, latina e francesa (séculos XVII, XVIII e XIX) particularmente nas questões ligadas à narrativa, poesia e teatro, e ensino de literatura e leitura.
Nesta entrevista Joaquim abordou especialmente dois últimos livros : Os Anos de Exílio do Jovem Mallarmé que saiu pela Ateliê Editorial (SP) em 2007 e a tradução de três tragédias sobre o mito de Hipólito e Fedra, escritas por Eurípedes, Sêneca e Racine, trabalho com o qual ganhou o Jabuti de tradução de 2008. O livro foi editado pela Iluminuras (SP, 2007) com o título Hipólito e Fedra – Três tragédias. Joaquim Brasil fala também de seus projetos em andamento: um livro sobre o poeta romano Ovídio e um video em parceria com a artista plástica Fúlvia Gonçalves, que está sendo realizado pelo Renato Kerr.
P. Joaquim vamos começar então por este livro: Os Anos de Exílio do Jovem Mallarmé que saiu pela Ateliê Editorial (SP) em 2007 e ao qual você já se referiu na nossa ultima entrevista. Como foi que você chegou a ele? Enfim qual é a história deste livro?
Joaquim Brasil Fontes Este livrinho é resultado de uma releitura de Mallarmé, que começou no ano de 2001, quando fui convidado para dar um curso em Belém, no Instituto de Artes do Pará uma série de palestras com o título: A Poética do Silêncio. O diretor do Instituto era, na época, um poeta que havia sido meu orientando de mestrado, João de Jesus Paes Loureiro.
P. Porque você gosta de Mallarmé...
Joaquim Sempre gostei muito, mas voltei a ele com atenção especial naquele momento. Li toda a sua correspondência, reli e repensei a obra dele. Meu livro nasceu daquelas palestras, num curso destinado basicamente a escritores, um público que desafiava qualquer diferença que uma visão acadêmica da escrita pudesse traçar entre “grandes” autores e “pequenos” escritores. Eram funcionários públicos, estudantes, escritores “de verdade”, intelectuais conhecidos: pessoas que tinham ousado lançar uma palavra que seja “no papel que o branco defende”, como diria Mallarmé. Eram todos escritores, portanto. Uma coisa muito bonita. Eu já tinha dado um curso sobre Safo em Belém para o mesmo público, e a sensação era de que ali todo mundo escrevia, era poeta, delirava. Uma coisa fortíssima. Belém me marcou muitíssimo. Quando fui ao Museu Goeldi, tive a sensação de pôr um pé na préhistória: estranhos peixes nos tanques, entre o mineral e o animal; um lago cheio de tartarugas imensas, animais nunca dantes vistos. E eu ali, no coração do país tropical, falando de Mallarmé, um poeta hermético, obscuro, um poeta dos poetas! Quanto o livro ficou pronto, o Instituto de Artes do Pará não pôde editalo por questões burocráticas. Recorri ao Plínio, da Ateliê, que criou um lindo projeto gráfico para o livro.
P.E como foi esta opção pelo jovem Mallarmé?
Joaquim – Todos conhecem o Mallarmé do Lance de Dados, o Mallarmé maduro. Volteime, porém, naquele curso para poeta quando jovem, de quem tentei fazer um retrato: um professor de uns vinte e poucos anos, recém casado, trabalhando em cidadezinhas da província francesa. Foi ali, entre aulas e correções de exercícios, às vezes em meio a crises profundas de depressão, que Mallarmé, descobriu, inventou, encontrou a sua poética do silêncio, do vazio, do nada. Embora ainda marcado pela leitura apaixonada de Baudelaire e de Poe, e contemporâneo da geração parnasiana (os primeiros poemas de Mallarmé serão publicadas pela revista parisiense dos parnasianos), ele já está rompendo com a tradição poética do pósr omantismo. Tomemos, por exemplo, o poema Suspiro, ainda baudelairiano: nele já se esboça, talvez pela primeira vez, a frase poética que será – que já era – a de Mallarmé, um abstrato continuum, aéreo, e, no entanto carnal:
Minha alma para tua fronte em que sonha,
Ó doce irmã, um outono juncado de sardas,
E para o céu errante de teu olho angélico
Elevase, tal num jardim melancólico,
Fiel, branco jorro d’água para o Azul suspira!
Para o Azul comovido de outubro pálido e puro
Que mira nos grandes tanques seu langor infinito
E deixa, na água morta onde a fulva agonia
Das folhas erra ao vento e cava um frio sulco,
Arrastarse o sol amarelo de um longo raio.
P. Cite alguma coisa que seja bem característica da sua poética nesta época que depois vai se consolidar ao longo de sua carreira?
Joaquim Me lembro imediatamente do chamado “soneto em yx”, um poema em que todas as rimas são em yx e or (e). Há, em torno desse soneto, uma verdadeira antologia de estudos críticos, como se ele fosse um enigma à espera de uma solução. Ora, Mallarmé é exatamente o poeta do insolúvel mistério, tão bem representado pela palavra ptyx, central neste soneto. Quiseram traduzila por “concha”, mas ptyx é o puro índice do intraduzível.
P.Ele foi o inventor dessa palavra?
Joaquim Não, a palavra é grega. Posso ler minha tradução do soneto?
De unhas puras no alto dedicando o seu ônix,
a Angústia esta meia noite sustém, lampadófora,
muito sonho vesperal queimado pela Fênix
que não recolhe alguma cinerária ânfora
nas credencias da sala vazia: nenhum ptyx,
abolido bibelô de inanidade sonora,
(pois o Mestre foi sorver lágrimas no Styx
com este único objeto de que o nada se honora.)
mas junto à vidraça ao norte vacante, um ouro
de licornes coiceando fogo contra uma nixe,
ela, defunta nuvem no espelho, embora
que, no oblívio fechado da moldura, se fixe
de cintilações no mesmo instante o séptuor.
Aqui, cada palavra tem um sentido, e assim também cada frase; mas palavras e frases se unem, numa estranha sintaxe que visa a desfazer o sentido, no momento mesmo em que ele desponta. Uma estudiosa belga encontrou uma raiz grega na palavra ptyx: ela reenviaria para a idéia de “dobra”, a partir da qual aquela senhora propôs, para ptyx, a significação de “concha”. É a partir daí que Octávio Paz traduziu, reinterpretou e escreveu um belíssimo ensaio sobre o “soneto em yx”. Tanto a tradução quanto o seu ensaio trazem, na verdade, a marca do gênio e da poética do Paz. O mistério de Mallarmé permanece. Paz é fogo, Mallarmé é gelo.
P. Mas o gelo queima. Ou seja, ele é contraditório?
Joaquim Contraditório? Um estudioso de Mallarmé disse, certa vez, que, nele, “a linguagem se detém no limite extremo, onde á ainda possível criar o espaço em que o Nada pode sobreviver”. Ouça, por exemplo, este soneto:
meus livros fechados no nome de Pafos
diverteme eleger com o gênio somente
uma ruína, por mil espumas bendita
sob o jacinto, ao longe, dos dias triunfais.
corra o frio com seus silêncios de foice,
não vou ulular ali uma vazia nênia
a todo lugar a honra da paisagem falsa.
minha fome que nenhum fruto aqui sacia
encontra em sua douta falta um sabor igual:
que um esplenda de carne humano e rescendente!
o pé nalguma serpe em que nosso amor se atiça
penso mais tempo ainda talvez perdidamente
na outra, no seio em fogo de uma antiga amazona
Ouça este outro, em que um leque se fecha, se desdobra e de novo se fecha na fímbria de um bracelete:
ó sonhadora, para que eu me atire
na pura delícia sem caminho,
queira, por uma sutil mentira,
guardar minha asa em tua mão.
uma aragem crepuscular
vem a ti a cada pulsação
cujo lance cativo recua
o horizonte delicadamente.
vertigem! e então estremece
o espaço como um grande beijo
que, louco ao nascer para nada,
não pode nascer nem sossegar.
sentes o paraíso selvagem
assim como um sorriso escondido
escorrerte do canto da boca
ao fundo da unânime dobra!
o cetro das margens corderosa
quedos nas tardes de ouro, é este
branco vôo fechado que pousas
de encontro ao fogo de um bracelete.
P. Você diria que aqui ele está mais com sentido?
Joaquim Não. Aqui, ele continua naquele limite extremo, em que ainda é possível sobreviver o Nada. De onde, sem dúvida, essa espécie de angústia que acompanha – pelo menos para mim – a leitura de Mallarmé. Os objetos, os seres, as pessoas, as ocupações mais “normais” de um pequenoburguês se transformam, sob a pena (se você me permite usar esta metáfora antiquada) de Mallarmé, em algo inquietante, em algo que acontece, não neste nosso mundo “real”, mas no coração da linguagem que aponta para “outro” mundo. Veja isso:
Toda a alma resumida
Quando lenta a expiramos
Em círculos de fumaça
Abolidos noutros círculos
Atesta algum charuto
Queimando sábio por pouco
Que a cinza se separe
Do claro beijo de fogo
E o coro das romanças
Voa em teu lábio assim
Dele exclui se tu começas
O real porque é vil
Muito exato o sentido rasura
Tua vaga literatura.
P. É assim mesmo? sem pontuação?
Joaquim Você percebeu o quanto a ausência de pontuação contribui para a beleza desses versos? Carlos Drummond de Andrade escreveu, já não sei onde, que a ausência de pontuação confirma, em Mallarmé, sua “misteriosa diafaneidade” e a libertação de “todo compromisso terrestre”. Mallarmé fala no corpo de uma ausência, que é a de Deus. Se você me permite, vou contar aqui uma anedota.
P. Me conte por favor!
Joaquim Mallarmé chegou a Besançon (uma cidade em que vivi também certo tempo) em 1866. Ele tinha na época pouco mais de vinte anos. “Antiga cidade de guerra e de religião, sombria, prisioneira”, escreve ele numa carta ao poeta François Coppée. Um ano depois, queixase ao amigo Cazalis: Besançon, “de clima negro, úmido, glacial”... Nesta mesma carta, ele declara que tinha passado, ali, “um ano terrível”:
Meu pensamento se pensou, e cheguei a uma Concepção Pura. Tudo o que, em conseqüência, meu ser sofreu durante esta longa agonia, é inenarrável, mas por felicidade, eu estou perfeitamente morto, e a região mais impura em que meu Espírito possa se aventurar é a Eternidade, meu Espírito, este solitário habitual de sua própria Pureza, que nem mesmo o reflexo do Tempo obscurece.
Um pouco mais adiante, na mesma carta, ele fala da sua luta contra “o velho e maldoso pássaro, vencido, felizmente, Deus”. E acrescenta na profundidade de uma angústia atravessada por todas as luzes da ironia: “Mas como esta luta aconteceu sobre sua asa ossuda, que, numa agonia mais vigorosa do que eu teria esperado dele, tinha me levado nas Trevas, caí; vitorioso, perdidamente e infinitamente – até que um dia voltei ao espelho de Veneza, tal como tinha me esquecido muitos meses antes”.
P. Ele sofria ...
Joaquim Sofria. Sofria nestes debates metafísicos. Sofria na sala de aulas, com seus alunos indisciplinados. Sofria com a pequenez da província francesa. Mas é ainda na província que ele esboça a primeira versão do famosíssimo A Tarde de um Fauno, mais tarde musicado por Debussy e dançado pelos Ballets Russes. É na província que ele encontra os primeiros versos de Herodiade, poema que nunca haveria de terminar... Herodiade: Ó espelho!/Água fria pelo tédio em que teu quadro gelada /Quantas vezes...
P. Por quantas cidades ele passou, na província francesa?
Joaquim São três cidades. Ele chegou a Tournon com sua Marie aos 21 anos de idade. Vem depois Besançon e, finalmente, Avignon que é uma pequena jóia medieval. É ali que Mallarmé escreve Igitur, um texto enigmático, um conto em que, a rigor, não acontece nada e tudo acontece. Você se lembra daquela estranha figura que, neste texto, desce uma escada em caracol para chegar ao ponto em que se bebe “a ultima gota que falta do frasco do nada”?
P. Nossa! A ultima gota que falta do frasco do nada é muito hein!
Joaquim É muito. Esse conto foi lido por Mallarmé para uns amigos poetas, de passagem por Avignon. Alguns se desconcertaram. Catulle Mendès ficou literalmente atordoado, perguntandose “O quê? é a isto, a esta obra da qual até o assunto não se revela jamais, cujas palavras não significam nunca seu sentido próprio, que Mallarmé chegou, depois de um esforço tão longo de pensamento, ao termo de um mal tão estranho que ele suportou tanto tempo recluso em seu sonho?” Igitur é uma espécie de “conto filosófico” em que tudo se passa à meianoite. Um quarto recolhe a quebra da hora. Tapeçarias estremecem, sepultam. Um rosto no espelho, apenas iluminado, se destaca. E, sobre a mesa, a palidez de um livro aberto...O texto só foi publicado após a morte do poeta, mas a partir de uma reformulação dos rascunhos que tem sido contestada pela crítica moderna.
P. Que foi feita por seu genro depois da sua morte?
Joaquim Exatamente. Eu gostaria também de lembrar que termina em Avignon o “exílio de Mallarmé”. Ele deixou a velha cidade em 1870, no momento em que a França estava sendo invadida pela Prússia. No coração da guerra, portanto. Ele parte para Paris, enquanto Marie dá a luz ao seu segundo filho, um menino. E se você me permite, vou acrescentar aqui uma curiosidade: o nome de batismo de Mallarmé era Etienne. É a partir desse momento que ele adota, de uma vez para sempre, a versão grega desse nome: Stéphane. Com o nome nascia o novo poeta, Stéphane Mallarmé. E é em Paris que ele vai aos poucos sendo conhecido pelo happy few, pelos poucos, pelos eleitos...
P. Pela nata?
Joaquim Mallarmé vivia num minúsculo apartamento situado na Rue de Rome, onde recebia, nas terçasfeiras, nos mardis, um grupo de eleitos. As fotos que temos desse apartamento mostram um local de pulsantes memórias: tapetes persas comprados em Besançon, um espelho de cristal, tesouros de obras impressionistas nas paredes, uma cama de ferro batido, o gabinete japonês de laca em cujas gavetas estão importantes anotações manuscritas. Às dez horas, Vève, a filha do poeta servia discretamente um groc aos convidados, e não é difícil imaginar Madame Mallarmé atravessando o corredor com um leque na mão – mas aquele era um espaço essencialmente de homens, famosos ou não, e o estojo de tabaco sobre a mesa não deixa qualquer dúvida a respeito: ali estão: Oscar Wilde, de passagem por Paris; Whistler; toda a geração simbolista, dos velhos mestres como Verlaine aos jovens Régnier, Pierre Louÿs, VieléGriffin, Jarry, Gide, Valéry, Claudel, ainda desconhecidos.Na sala de jantar imersa em fumaça azulada, à luz de um lampião tamisada por um xale, Mallarmé até então simples espectador, levantase e toma a palavra, literalmente: apoiandose no aquecedor, divaga sobre um tema, disserta, volta ao ponto de partida, constrói, com sua voz irônica e um pouco afetada, constelações de textos para sempre perdidos; o Texto, talvez, por excelência.
P. E a esta altura como está à vida digamos profissional dele?Já sobrevive de literatura?
Joaquim Ele continuava vivendo do salário de professor. Durante sua vida, Mallarmé foi, digamos, um poeta de “obras inéditas”: uma versão do Fauno, Herodíades, Igitur, os fragmentos do Túmulo de Anatole, todo um exercício de preparação para a escrita do Livro por definição, necessário e impossível. O que se poderia chamar de “obra de Mallarmé”, no ano em que ele morre – 1898 – é uma pequena biblioteca de textos esparsos em revistas de curta duração, álbuns de versos, uma edição fotolitográfica das Poesias, folhas soltas, divagações, rabiscos... E acrescentese – equívoco que a história literária, no entanto reafirmará que esse poeta de uma obra que é naquele momento pura evanescência, não se considerava simbolista: “o verdadeiro mestre dos simbolistas”, dizia ele, “é Verlaine”.
P. Se tentássemos uma comparação com as artes plásticas ele seria um impressionista?
Joaquim Mallarmé foi grande amigo do impressionista Manet, autor daquela que é talvez, a mais famosa imagem pintada do autor do Fauno. Geralmente, quando se fala de Mallarmé, este retrato vem à nossa memória. E se Mallarmé é contemporâneo dos impressionistas, se sua estética tem pontos de encontro com a deles, o nosso poeta talvez tenha ido – é a minha opinião – muito além do impressionismo.
P. E quanto a sua saúde? Ele era saudável?
Joaquim – Nas cartas escritas na província, ele se queixa de dores, reumatismo, angústias. E há uma fotografia dele, já maduro, que é emblemática: todo friorento com uma echarpe de lã pieddepoule sobre os ombros.
P.A echarpe de Mallarmé... Olha que pode ser um titulo de livro.
Joaquim Não é?
P. Mas apesar disso era super ativo.
Joaquim – Fiquei impressionado com a descrição do jovem Mallarmé feita pelo poeta parnasiano Catulle Mendès. Tão impressionado que a repeti três vezes, em pontos diferentes do meu livro: “ele era pequeno, enfermiço, com, numa face ao mesmo tempo severa e dolorosa, doce na amargura, destroços de miséria e decepção. Tinha mãozinhas finas e um dandismo (meio cortante e frágil) de gestos. Mas seus olhos mostravam a pureza das criancinhas. (...) Passando a impressão de não dar a menor importância às coisas tristes que me dizia, contoume que tinha vivido um longo tempo muito infeliz em Londres (...). Depois me deu versos para ler. Estavam escritos com uma letra fina, correta e infinitamente minuciosa num desses caderninhos encadernados com papelão imitando couro, fechado por uma fivelazinha de couro. Fiquei deslumbrado”. Eu também, e foi esse o Mallarmé que eu tentei desenhar no centro do meu livro.
P. Você me disse que ele traduziu Edgard Allan Poe!
Joaquim Justamente não podemos esquecer disso. Desde a adolescência, Mallarmé foi grande admirador de Poe, de quem traduziu O Corvo: uma edição lindíssima, ilustrada por Manet, que também ilustrou A Tarde de um Fauno, uma edição de luxo, pouquíssimos exemplares. As gravuras foram aquareladas à mão pelo próprio Manet. Ah, e antes que eu me esqueça disso também: um orientando meu de pósdoc, Fernando Scheibe, traduziu o que talvez seja o mais importante livro em prosa de Mallarmé: Divagations Divagações.
P. E por falar em tradução vamos agora à tua tradução das três tragédias de Eurípedes, Sêneca e Racine com o qual você ganhou o Jabuti de tradução de 2008 que foi editado pela Iluminuras (SP, 2007), com o título Hipólito e Fedra. Três tragédias. Eu vi aqui que ele é trilingue?
Joaquim Considero esse livro, com seu ensaio inicial de cerca de cem páginas, o texto grego, o latino e o francês, tanto quanto as traduções, uma longa divagação sobre o mito de Fedra e Hipólito. Fedra, rainha cretense, era a mulher de Teseu, rei de Atenas. Hipólito é o filho de Teseu com a rainha das Amazonas: um jovem casto, dedicado ao culto de Ártemis, a deusa das inóspitas selvas. Deusa também casta. Para vingarse da pureza de Hipólito, Afrodite, a potência do amor, sopra nas veias de Fedra uma paixão desenfreada pelo seu enteado. Há, portanto, dois eixos neste universo trágico: Castidade e Paixão, em torno do qual rodei obstinadamente durante cerca de cinco anos, no curso de uma pesquisa financiada pelo CNPq. O resultado: um ensaio de cerca de mil páginas, que “enxuguei” para compor as cem páginas que abrem a minha edição do mito de Fedra e Hipólito. Não sei se o conjunto será publicado algum dia...
P. Sei também que está trabalhando em outro ensaio? É isso? Sobre Ovídio, poeta romano de quem você gosta muito? Do que se trata? Por que Ovídio?
Joaquim Ovídio é um poeta surpreendente, que tem sido redescoberto pela crítica literária moderna há cerca de uns 50 anos. É talvez, dentre os poetas latinos, aquele que tem sido mais estudado atualmente, nos Estados Unidos, na Itália e também no Brasil. Um poeta surpreendente, irônico e sutil, que escreve sempre na pauta do discurso citacional, plurivocal. Um poeta erótico, autor de uma Arte de Amar, motivo de certo escândalo já na Antiguidade clássica. Um poeta profundamente influenciado pela cultura helenística. Um poeta exilado por Augusto no “inóspito Ponto” (hoje, Romênia), onde morrerá, no começo da era cristã, escrevendo intermináveis elegias tristíssimas, publicadas, aliás, com o título de Tristes. É ele o autor das famosas Metamorfoses, que sempre foram, para leitores medievais, renascentistas e modernos, uma verdadeira mina de mitos. Acabo de reler toda a obra de Ovídio. Estou escrevendo sobre ele, ao longo dos dias e das noites. Lanço, este ano, como três “balões de ensaio”, três artigos que vão ser publicados em revistas especializadas em literatura e latinidade. Vejamos o que dirão os especialistas... Se os deuses o consentirem, estarei publicando meu livro sobre Ovídio daqui a uns três anos.
P. Sei ainda que você , juntamente com a Fúlvia Gonçalves estão articulando um DVD? Gostaria que falasse sobre, quem está produzindo, de que se trata, etc.
Joaquim É um trabalho em curso, feito por um jovem especialista na área, Renato Kerr. Ele parte de uma série de gravuras impressionantes que a artista plástica Fúlvia Gonçalves criou a partir da leitura de treze traduções minhas de Mallarmé. Pude acompanhar alguns das sessões de filmagem e me surpreendi com a qualidade desse trabalho, com a perícia, intuição e delicadeza do Renato.
Para saber mais sobre o autor
https://bv.fapesp.br/pt/pesquisador/92272/joaquimbrasilfontesjunior/
https://dicionariodetradutores.ufsc.br/pt/JoaquimBrasilFontesJunior.htm
https://www.germinaliteratura.com.br/2009/pcruzadas_analuciavasconcelos_jun2009.htm
Sobre o autor:
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