Renata Pallottini , escritora, poeta, educadora
Renata Monachesi Pallottini nasceu em São Paulo em 1931). Poeta, romancista, contista, autora de literatura infantil e juvenil, dramaturga,...
Revista digital de Arte e Cultura
A primeira entrevista que fiz com Joaquim Brasil Fontes aconteceu na sequência da publicação de seu livro Variações sobre a Lírica de SafoTexto Grego e Variações Livres, lançada na II Bienal Internacional o Livro em 1992 em São Paulo e editada pela Estação Liberdade (com uma tiragem limitada: 50 livros em papel couché e mais 1.500 em papel pólen) com belíssimas gravuras da artista plástica Fúlvia Gonçalves. Digase que este foi o segundo livro de Joaquim Brasil Fontes sobre a poeta grega Safoo primeiro foi Eros, Tecelão de Mitos . A matéria foi publicada em novembro do mesmo ano (1992) no Jornal de Domingo de Campinas, atualmente extinto, quando eu era sua orientanda de mestrado na Unicamp. E então ele falou dos seus trabalhos, como começou a estudar a obra de Safo de Lesbos, sua forma de abordagem dos temas que tem muito da linguagem do cineasta Fellini, seu amor pela Grécia, pelo idioma grego, pela arte persa e outras preferências em matéria de arte.
Em 2007 eu o contatei para fazermos uma nova entrevista, desta vez falando dos seus novos livros e trabalhos ocorridos e pedi para atualizarmos aquela primeira entrevista. O que ele fez? Respondeu novamente as minhas perguntas de forma completamente nova. Então tenho um documento inédito: uma série de perguntas com respostas diferentes. Ela está publicada no no site que criei e edito : http://vitabreve.com/artigo/131/joaquimbrasilfontestraduzindoomundogregoefalandodemetamorfoses/ onde ele fala também dos trabalhos posteriores aos dois primeiros livros citados: A Musa Adolescente (Iluminuras, 1998, SP) seus estudos sobre Mallarmé, seus cursos, viagens e sobre a pesquisa mais recente na altura cujo tema era a metamorfose.
A segunda entrevista foi feita para o portal Germina Literatura http://www.germinaliteratura.com.br/2009/pcruzadas_analuciavasconcelos_jun2009.html onde ele fala especialmente dos dois últimos livros publicados na altura : Os Anos de Exílio do Jovem Mallarmé que saiu pela Ateliê Editorial (SP) em 2007 e a tradução de três tragédias sobre o mito de Hipólito e Fedra, escritas por Eurípedes, Sêneca e Racine, trabalho com o qual ganhou o Jabuti de tradução de 2008. O livro foi editado pela Iluminuras (SP, 2007) com o título Hipólito e Fedra – Três tragédias. Joaquim Brasil fala também de seus projetos em andamento na época: um livro sobre o poeta romano Ovídio e um vídeo em parceria com a artista plástica Fúlvia Gonçalves, que estava sendo realizado pelo Renato Kerr.
A terceira foi realizada em fevereiro de 2018 e pode ser lida neste link: http://vitabreve.com/artigo/182/asgrandesquestoesdeoscantosdemaldoror,delautreamont(mascaraautoraldeisidoreducasse)/ onde ele aborda especialmente seu penúltimo livro publicado: sua tradução de Os Cantos de Maldoror do Conde de Lautréamont ( pseudônimo de Isidore Ducasse) autor que estuda ha anos, falando de modo particular da sua “ filosofia” de edição que é diferente das outras traduções encontráveis. Enfim, para dar mais luzes para o leitor entrar no universo tão particular deste escritor tão único nesses Cantos de Maldoror, Joaquim fala da questão da autoria, a questão da reescrita, a questão do apagamento da vida pessoal dele quando então deixa emergir a animalidade ( quando ele cola com o predador, como diz) e finalmente a mistura de gêneros.
Filosofo professor, pesquisador e tradutor, Joaquim Brasil Fontes é atualmente titular da disciplina Leitura e Produção de Textos na Universidade Estadual de Campinas (SP) e coordenador do GEISHGrupo de Estudo Interdisciplinar em Sexualidade Humana da Unicamp, onde desenvolve pesquisas sobre erotismo e sexualidade, no horizonte das literaturas clássicas e modernas. Atua ainda nos Grupos: Poesia da Idade Imperial Romana e Diversidade em Educação e na área de Educação, com ênfase em Literatura e Ensino, Literatura Comparada, Literaturas Clássicas grega, latina e francesa (séculos XVII, XVIII e XIX) particularmente nas questões ligadas à narrativa, poesia e teatro, e ensino de literatura e leitura.
Apaixonado pelos autores gregos, latinos e franceses entre eles Lautréamont e Mallarmé, Joaquim Brasil Fontes tem treze livros publicados: Fragmentos dos fragmentos da lírica de Safo. Florianópolis, Noa Noa, 1990; Eros, tecelão de mitos. São Paulo: Estação Liberdade, 1991; (2a. edição: São Paulo: Iluminuras, 2003); Variações sobre a lírica de Safo. São Paulo: Estação Liberdade, 1992; A Musa adolescente. São Paulo: Iluminuras, 1998; As Obrigatórias metáforas. (Apontamentos sobre literatura e ensino) São Paulo: Iluminuras, 1999; O Livro dos simulacros. Florianópolis: Clavicórdio, 2000; Poética do fragmento. Belém: Instituto de Artes do Pará, 2000; Safo de Lesbos. Poemas e fragmentos. Trad. de Joaquim Brasil Fontes. São Paulo: Iluminuras, 2003; Os Anos de exílio do jovem Mallarmé. São Paulo: Ateliê, 2007. É tradutor para o português de Eurípides, Sêneca, Racine e Baudelaire, este ainda inédito; Cantos de Maldoror. Editora Unicamp, 2015. Vai lançar em abril de 2018 NigredoEstudos de morte e dulia pela Cultura e Barbárie, Editora de Florianópolis. Recebeu o Premio Jabuti por Hipólito e Fedra. Três Tragédias. São Paulo: Iluminuras, 2007 .
Dono de uma cultura e simpatias invejáveis, Joaquim Brasil Fontes tem também um humor maravilhoso que, aliás, é sua marca registrada. Apesar de se confessar um apaixonado por Campinas, Joaquim Brasil Fontes é mineiro. “Eu gosto muito de Campinas, mas minha paisagem são as montanhas. Acho que Minas deixou uma marca muito grande.”
Nesta entrevista , a quarta portanto , que faço com Joaquim, converso sobre seu ultimo livro Nigredo estudos de morte e dulia onde pela primeira vez ele publica seus desenhos e cuja tônica, no seu entender, está no desmoronamento da figura de Stephan Wolff, poeta e tradutor que por assim dizer recupera a voz e a memória depois de perdêlas. Como se, morto, o poeta e tradutor ressurgisse em Veronica Franco, a universitária cartesiana, sob a forma de “estudos de morte e dulia”. Ele quer sublinhar a palavra ‘morte” mas também ‘estudos’ que deve ser entendido no sentido de estudos na musica ( estudos de Chopin ) ou estudo no sentido das artes plásticas que seriam esboços, ensaios, preparações para figuras que fariam parte de trabalhos maiores, mais amplos. Vejamos a entrevista.
P. Uma pergunta que faço sempre para os escritores , especialmente ficcionistas é como é seu processo criativo, como a história nasce na sua imaginação, que período do dia ou da noite prefere para trabalhar, enfim, qual é a campainha de disparo para aquela obra. Você , que é mais um ensaísta e tradutor , ainda que tenha também um livro de ficção , como funciona? Como nascem os seus livros? Ou como nasceram seus treze livros incluindo traduções?
Joaquim Brasil Fontes Fui aluno do semiólogo Roland Barthes, um maravilhoso ensaísta. Em certo momento, ele foi tomado pelo desejo de escrever um romance à maneira de Proust; um grande romance. Ofereceu, então, um curso teórico no Collège de France, com o título: “A preparação do romance”. Não sublinharei, aqui, a ironia desse pequeno acontecimento parisiense: o mestre morreu antes de terminar a segunda parte do curso, o curso já foi publicado e o romance jamais escrito. Simone de Beauvoir conta (mas ela mentia muito) que quando Sartre se preparava para escrever uma peça, ouvia um grito: “Os quatro cavaleiros do Apocalipse!” Plínio, o Velho, retomando em latim um dito do pintor grego Apeles, anota: nulla dies sine linea. Eis a divisa do escritor: rabiscar todo dia pelo menos uma linha, mesmo que seja para deletála imediatamente. Estou sempre escrevendo, até quando durmo o mais profundo dos meus sonhos. Às vezes, uma palavra desencadeia em mim intermináveis romances que vou escrevendo na memória e deletando em seguida: AUREA AETAS, URSA MAIOR, AERE PERENNIUS.
P Sei , cada um com sua mania, ou habito , digamos assim. E você pensa sempre em latim? Ou não necessariamente?
JBF Boa pergunta. Não, não penso sempre em latim. Mas as palavras dessa língua às vezes se agrupam na minha memória, movidas pela dinâmica dos fonemas ou do sentido, formando verdadeiras cadeias de sons meio enigmáticos, que prefiguram ações, embates, acontecimentos singulares. Pugnas e mortes. Romanções, enfim. Agora mesmo, acabo de ouvir: pistris, priscus, privus; primulo diluculo. São verdadeiras mantras. Mas, como você disse muito bem, sou principalmente um ensaísta e, no meu trabalho, a escrita está intimamente ligada à tradução: não sei se o meu livro sobre Safo (Eros tecelão de mitos) nasceu da tradução dos seus fragmentos ou se ocorreu o contrário. Não sei se meu ensaio sobre o teatro clássico (Três tragédias) se impôs a partir de traduções de Eurípides, Sêneca e Racine, ou se os dois discursos se entrelaçaram desde o começo. Eu diria o mesmo a respeito do meu texto sobre Mallarmé, que tem, no fundo, um vago côté narrativo, com uma alusão ao “romance de aprendizagem” (Os anos de exílio do jovem Mallarmé).De qualquer maneira, todos esses temas estão ancorados em memórias muito antigas – em leituras da infância e da adolescência. E uma coisa é certa: todos os meus livros foram gerados fora da academia. Nigredo parece que nasceu da niger, de significados múltiplos: negro, sombrio, tenebroso. Malfazejo. Fúnebre, funesto, fatal. E há o significado alquímico, que é mais comum, e no qual andei pensando vagamente.
P. Neste novo livro Nigredo você inicia com desenhos, mais exatamente bicos de pena. Você me disse que é a primeira vez que publica seus desenhos. Então desenha ha muito tempo?
JBF. Sou um grande apreciador da arte gráfica e entendo a admiração de Baudelaire pelas gravuras de Constantin Guys, que o poeta chamava de “pintor da modernidade”. Comecei a desenhar antes de aprender a escrever. Às vezes, desenho até quando estou no mais profundo dos meus sonhos, mas, ao contrário do que sucede com a escrita, me acontece passar períodos incapaz de fazer uma garatuja. De repente, volta a necessidade de desenhar: acabo de produzir uma série para o Terceiro Canto de Maldoror, não sei por quê. Vi Maldoror usando uma armadura reluzente de alumínio. Outras imagens brotaram: o convento lupanar, prostitutas, o Criador embriagado caído na estrada. Temas e motivos apareceram, dando uma unidade ao conjunto. Às vezes, a criação se faz num diálogo com outros artistas, como Albright ou Louise Bourgeois. Gosto demais das gravuras de Dürer. Criança, eu já fazia livros ilustrados; fui e continuei a ser durante muito tempo um colecionador de histórias em quadrinhos: na França, estudante de Letras, eu tinha na estante, ao lado do meu Lautréamont, os famosos álbuns encadernados da revista Pilote, com os maravilhosos desenhos de Fred, Moebius, Gir, Tabary. Uso sobretudo o creiom e o bico de pena, às vezes a aquarela. Nunca consegui fazer pintura a óleo, pintura de cavalete, uma grande pintura, mas estou pensando em oferecer um curso na Unicamp com o título: “A preparação de uma tela”.
P. Muito interessante isso e surpreendente, digamos. Acho que o curso vai ser beleza pura. Mas voltando ao livro e começando pelo começo: você inicia com a citação de um poema de Hörderlin As Parcas e em seguida vem uma nota da curadora dos papéis de Stephan Wolff, Veronica Franco, contando como encontrou os desenhos e em seguida uma tentativa de explicar o livro. Na sequência e já no primeiro capitulo o que imagino como uma epigrafe , vem um trecho das Confissões de Santo Agostinho onde ele ouve, num dia de profunda dor e angustia aquela famosa frase que é: Tolle, Lege Toma e lê que detona sua conversão, sua mudança de vida. O livro que ele abre é as Sagradas Escrituras. Nigredo que eu entendo, é então um livro onde você usa dois personagens como seus alter ego: Stephan Wolff e Veronica Franco. Me conta então por que isso, quer dizer por que a opção por contar através de terceiros ?
JBF. Não sei se você sabe que Manuel Bandeira traduziu Hoelderlin para figurar num artigo de Otto Maria Carpeaux que apresentava o grande poeta alemão ao Brasil: na época, ninguém tinha lido Hoelderlin por aqui. Eu o descobri adolescente naquele belo ensaio que às vezes ainda releio com emoção; e gostaria que essa emoção estivesse presente na abertura do livro. Desde a primeira leitura, senti em Hoelderlin a dicção dos antigos, palavras oraculares e o advento da modernidade. Vêm a seguir, em Nigredo, textos curtos e desenhos. De um lado, um universo onírico, negro, funesto. O caroço do livro, se quiserem. Do outro, um discurso que tenta disciplinar essa treva; e o conjunto tem que ser lido nessa dialética, se você me permite usar essa palavra no seu sentido quase banal. Essa dialética se impôs na medida em que eu queria passar no livro uma experiência vivida, a da melancolia, que os modernos chamam de depressão. Mas o melancólico perdeu a capacidade de abertura para o outro e, portanto, o uso da palavra.
Acredito, porém, que uma forma de aproximação dessa experiência pode acontecer a partir de seus reflexos no outro: aqui, os desenhos que a prefiguram; ali, o discurso da curadora dos papéis deixados por Stephan Wolff, poeta e tradutor. Não vejo Stephan Wolff e Verônica Franco como personagens, tomando essa palavra no sentido que ela tem na teoria da narração: eles são figuras do discurso, que me permitiram fazer uma abordagem, de fora, da melancolia, criando perspectivas que se sucedem sob a forma de círculos. É evidente que percebi imediatamente a impossibilidade de totalizar a experiência da melancolia.
P. Certo. Porque no momento da crise, digamos de melancolia, ou de depressão para usar a palavra moderna, seria impossível verbalizar?
JBF. O melancólico é o homem que foi expulso da relação intersubjetiva. Ele perde a abertura para o outro e, portanto, o acesso à palavra.
P. Entrando no livro temos uma série de bicos de pena onde se vê muitos círculos, mandalas com frases em francês, iluminuras com figuras míticas, anjos, jovens dormindo, ou deitados lendo, figuras com nomes de filósofos como Platão, Sócrates, desenhos com palavras em francês, latim , grego, ou com rabiscos ininteligíveis, sapos, corvos, referencias a Gargântua e Pantagruel, de Rabelais citações de Mallarmé, Lautréamont, magos, penas, canetas tinteiro antigas, muitas penas, o inicio do Evangelho de São João em latim: No principio era o Verbo e o Verbo estava em Deus, e o Verbo era Deus, um anjo numa escada que da para o céu, um ovo , uma teia de aranha, uma figura em desespero de cara para uma parede, dois jovens entrelaçados, homens virando plantas, um jovem e uma mulher em trajes medievais, figuras que não distingo a origem e que gostaria que você me falasse sobre, a cena da Anunciação do Anjo à Virgem Maria, Maria tendo nos braços Jesus morto, não exatamente na mesma ordem. A pergunta é: este livro é um balanço de tudo que você estudou, teus autores prediletos, durante sua trajetória de vida profissional.
JBF. Você descreve com perfeição o cosmos, digamos figural, da primeira parte do livro: círculos, mandalas e iluminuras (só agora percebo que são círculos, mandalas e iluminuras!), anjos, jovens dormindo. É o universo do poeta e tradutor Stephan Wolff, o (digamos assim) sujeito da melancolia. Entre as imagens, e nelas, há palavras, palavras, palavras em diversas línguas. Às vezes, palavras ininteligíveis, figurando o universo cultural e seu progressivo desmoronamento. Você deve ter percebido que essas figuras dialogam com todo um registro pictural, e não apenas com a estética da HQ, pois estão presentes nesse bloco imaginário os meus santos mestres: Dürer, mas também Doré, os ilustradores quinhentistas de Rabelais, Odilon Redon, Louise Bourgeois. Poucos artistas conseguiram figurar a solidão do depressivo tão bem quanto Louise Bourgeois em suas instalações. Você encontrará também nessa parte do livro Ivan Albright, pouco conhecido no Brasil, com sua pintura minuciosa, elaborada e sombria. Não sei por quê, Jean Cocteau, cujo cinema admiro muito, também está presente na abertura do livro. Talvez por causa dos seus anjos corcundas. Gostei da leitura que você faz da “cena da Anunciação”. Ela mostra o quanto a imagem escapa ao seu autor, pois o que lhe aparece como um clássica Anunciação é, na minha versão, uma das alegorias da Melancolia: o encontro de Irmã Agonia com o seu Protetor e Carrasco, o Anjo Corcunda. Como você vê, cada leitor pode reelaborar à sua maneira esse conjunto de imagens. No fundo, cada conjunto de desenhos, ao ser nomeado, encerra uma ou várias histórias.
P.Você vê como seus desenhos remetem à sua erudição, confirmando o que eu disse, segundo percebi, que este livro é um balanço de sua vida intelectual, sua trajetória como escritor e estudioso de várias artes, como aliás não poderia deixar de ser.
JBF. Não sei se cabe aqui o termo erudição, que nos faz pensar imediatamente no velho sábio entre seus alfarrábios. A minha relação com os meus mestres é transgressora, jubilosa e quase infantil. Às vezes copio desenhos deles. Mas é verdade que há neste livro não apenas um balanço de minhas leituras, mas também do meu contato com pintores antigos e modernos, aquafortistas, gravadores, entalhadores...
P. Vamos falar sobre o titulo agora: Nigredo Estudos de morte e dulia. Nigredo em latim, é aquele termo usado pelos alquimistas para designar o primeiro estágio da transformação da matéria ou ainda do homem em ser espiritual, a noite escura da alma, morte do ego, mas também significa decomposição ou putrefação. Morte é passagem para a vida eterna para quem acredita e dulia é veneração em grego . Este livro é uma reflexão sobre a melancolia nome antigo para a moderna depressão, já que na sequencia dos desenhos você, ou Stephan Wolff narrado por Veronica Franco inicia uma elucubração sobre a teoria dos humores nos homens: os quatro humores que imitam os diversos elementos, e reinam em diferentes idades. O sangue que imita o ar, aumenta na primavera, reina na infância. A melancolia ou bílis negra imita a terra, aumenta no outono, reina na maturidade. A fleuma imita a agua, aumenta no inverno , reina na velhice. E quando esses humores não ultrapassam a justa medida o homem está em sua plenitude: floresce, cheio de vida e vigor. Nigredo é uma reflexão sobre a depressão com alusão aos grandes melancólicos da literatura universal como Heráclito, Rabelais, Lautrèamont, Mallarmé?
JBF. Perfeito, Ana. Você viu bem o arcabouço, digamos cultural, de Nigredo. Cheguei a pensar em outros títulos, como Melancholia cum figuris, mas achei que poderia parecer pedante, embora este livro derive também de minhas preocupações sobre as relações da palavra escrita com a imagem. E o termo Nigredo voltava. Pensei depois em A sala dos passos perdidos, pois o livro trabalha com formas, gêneros, discursos heterogêneos, mas vi sempre que a tônica estava no desmoranamento da figura de Stephan Wolff, na possibilidade de recuperar a voz e a memória depois de perdêlas, como se, morto, o poeta e tradutor ressurgisse em Veronica Franco, a universitária cartesiana, sob a forma de “estudos de morte e dulia”. Sublinhemos a palavra morte, mas também estudos, que tem um sentido preciso (cf. os estudos de Chopin) na música, mas que eu tomo aqui no sentido das artes plásticas: esboços, ensaios, preparações para figuras que serão recuperados em trabalhos mais amplos: estudos de pastores, de mercadores, de prostitutas. Estudos de morte e dulia. Resumindo: acho que há neste livro uma marca forte da ensaística e da poesia. A dominante, porém, é narrativa.
P. Entendi agora o sentido de Estudos que você usa para este livro. Então aqui eu continuaria falando da citação que você faz de Hildegarda de Bingen, musicista e teóloga, mística do século XII que atribui a causa da melancolia ao pecado original de Adão. Ou seja, para ela, toda a raça de Adão padeceria de tristeza em função dessa primeira tentação do demônio e da maçã, ou fruto proibido, que teria envenenado seu sangue. E para isso, que tipo de cura ela propõe, não obstante termos noticia de a melancolia levar muito comumente ao suicídio?
JBF Lembrese de que os cristãos não gostavam dos suicidas e de que Dante os coloca num bosque infernal, sob a forma de árvores roídas por sangrentas harpias. A grande Hildegarda, que foi a nossa primeira fitoterapeuta, criou para os melancólicos medicamentos à base de vegetais, certa de que poderia curálos. As receitas chegaram até nós. Acabo de ler, aliás, um livro escrito por Paul Ferris que tem por título Os remédios de Hildegarda de Bingen, publicado em francês pela Marabout. Contra a melancolia, a santa monja aconselhava infusões de flores da primavera: 3 a 5 taças entre as refeições. Mas nós sabemos que uma crise de melancolia termina sempre como um grande amor: com o suicídio (lembrese de Werther!) ou como um foguete que, tendo saído do cabo Canaveral, de repente não é mais ouvido pelos homens que ficaram aqui na terra. O tema do suicídio é, aliás, evocado – como tentação ou delírio – várias vezes em Nigredo.
P. Entrando agora n’ O poço profundo de merencolia que é titulo de um capitulo de Nigredo, que está justamente na metade do livro , a curadora Veronica Franco anota que o Stephan Wolff teria lançado no papel alguns nomes numa pagina em branco entre rabiscos e arabescos antes de entrar no reino de Acherontia Atropos. E que para ele ela imagina todo o livro, digamos assim, não seria uma soma de saberes sobre a Melancolia, mas uma tentativa, ou vontade de “pontuar um espaço com uma pequena constelação, a fim de exorcizar, talvez, os prenúncios, oráculos, revelações da borboleta negra”. Você podia falar do significado de Acherontia Atropos, que aliás, vai falar no final do livro? E ainda: Você diria que este livro, apesar das citações dos melancólicos famosos da literatura universal, é o relato de uma experiência pessoal e intransferível da personagem central: Stephan Wolff?
JBF. Encontrei o sintagma Acherontia Atropos bem antes de saber seu significado preciso em insetologia: é o nome de uma grande borboleta noturna, negra, com uma espécie de caveira desenhada no corpo. Acherontia Atropos: me encantei com as sonoras sílabas gregas que compõem esse sintagma e lembram o rio do inferno e a parca inflexível, inevitável, aquela que corta o fio da vida. Tremi, pensando imediatamente que devia haver em algum parte do outro mundo um reino obscuro governado por um princesa sinistra, cujo nome seria Acherontia Atropos. Vi o pobre do Stephan Wolff, poeta e tradutor, aprisionado nesse país subterrâneo, preso a um catre, incapaz de dizer uma só palavra, mal podendo rabiscar umas garatujas no papel. A partir dessas garatujas, Veronica Franco iria construir suas páginas serenas e – por que não? – eruditas.No mais, você viu bem: Nigredo avança, sob a forma de estudos – que são esboços –, registrando um experiência pessoal e portanto incapaz de caber no universo dos discursos corretos.
P.Você disse que antes de começar a escrever Nigredo tinha vinte letras capitulares é isso? E que na sequencia do processo de escritura se encaixaram perfeitamente aos títulos que seriam desenvolvidos no texto. Me fale sobre isso. Digamos que você viu o livro antes de ele ser escrito?
JBF Às vezes eu minto.
P. Ok. Mas este livro é sumamente complexo, na minha modesta opinião. Assim gostaria que me falasse de forma bem livre por exemplo em quanto tempo escreveu? Porque ele não é linear, caminha em círculos como você mesmo disse já em outra ocasião. Você, quero dizer o Stephan Wolff via Veronica Franco cita dezenas (ou seriam centenas?) de autores desde Hoelderlin, Heráclito, Poe, Charles D’Orléans, Montaigne, Baudelaire, Mallarmé, Camões, Konstandinos Kafávis, Cecilia Meireles, o auto retrato de Ivan Lorraine , artista plástico americano, Lautréamont, Simone de Beauvoir, Dante e Virgílio na Divina Comédia, mas justamente no seu tour pelo Inferno. Bom, digamos que cita até Carlos Drummond de Andrade num poema em que ele conjectura, à janela, sobre a vida e até sobre suicídio, vagamente. Ou seja, além dos autores que você considera melancólicos por natureza, lembra de outros como a Simone de Beauvoir que nas suas memórias vai dizer que Melancolia fora o primeiro titulo escolhido para a Náusea de Sartre por causa da gravura de Dürer da qual (Sartre) gostava muito. Mas que vai também vai afirmar nessas mesmas memorias: A Força das Coisas, no Balanço Final que “a pessoa psiquicamente arruinadadeprimida, desesperadanão consegue escrever: refugiase no silencio”. Tudo isso para falar da relação da literatura com a loucura que você todo o tempo, me parece, quer sublinhar.
JBF. – Acho a sua leitura exata. Só faço um reparo: não sou Stephan Wolff via Verônica Franco. Veronica e Stephan são figuras do discurso, colocadas em movimento por um narrador que já não sou eu.
P. E agora queria que me falasse sobre a Baudelairiana, série de poemas que vem na sequencia, traduzidos da edição Seuil de 1968, “por acaso , o ano das grandes revoltas estudantis em Paris.
JBF Será que algum dia conseguirei traduzir Charles Baudelaire, isto é, dizêlo em versos?
P. E para terminar vamos falar de Nigredo propriamente dito: a descida aos infernos que é fácil fazer, conforme explica a Sibila ao herói no Canto VI da Eneida “ pois as portas estão sempre abertas. Mas é difícil encontrar o caminho de volta às auras do alto; se alguns triunfaram contra o Orco eram Deuses ou filhos de um Deus”. Me fala dessa descida aos infernos do Stephan Wolff , da caverna, dos adjuvantes, da passagem , enfim da personagem, para o outro lado. E finalmente Veronica Franco visitando o tumulo de Stephan Wolff e encontrando Baudelaire e sua amante. Sabia que pensei que Nigredo daria um filme?
JBF. – Um filme? Você viu bem! Você sabe que sou um admirador do cinema de Jean Cocteau? Pode ser que, inconscientemente, filmes como Orfeu, A bela e a fera, O eterno retorno e Sangue de um poeta tenham marcado Nigredo, sobretudo em suas rupturas, lacunas e em seus movimentos, cortes e sequências às vezes breves, às vezes muitos longas. Gostei demais da sua observação, e termino dizendo que a recepção deste texto mudaria se você o lesse como se estivesse vendo um filme.
Para saber mais sobre o autor:
http://poesiadiversidade.blogspot.com.br/2009/11/entrevistacomoprofessorjoaquim.html
https://www.unicamp.br/unicamp/ju/noticias/2017/05/09/umtradutornocoracaodaescritadacrueldade
https://www.youtube.com/watch?v=yBOyVwaKc9s
https://www.youtube.com/watch?v=Qet7UnTF2OE
http://www.editoraunicamp.com.br/produto_detalhe.asp?id=1034
Sobre o autor:
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