Sumi-ê de Nydia Bonetti
Os poemas de Sumi-ê, de Nydia Bonetti, inventam um jardim, que não é o zen japonês, mas tenta simulá-lo, com...
Revista digital de Arte e Cultura
O texto em que Alice mais desenvolve reflexões sobre fotografia é, talvez, sua tese de doutorado, Viagens imaginárias: transformação de uma técnica milenar em linguagem contemporânea, escrita em 1994, quando já deixara de fotografar havia cerca de trinta anos (1). O batik, tema do trabalho, pode ser pensado como uma imagem-síntese do diálogo entre artes plásticas e fotografia em sua obra.
Trata-se de uma técnica artesanal indonésia de tintura de tecidos. Utilizando um pequeno instrumento chamado tjanting, aplica-se cera de abelha líquida sobre a superfície de um tecido, de maneira a formar desenhos ou padrões; o tecido pode ainda, após o endurecimento da cera, ser amassado para produzir finas nervuras que resultarão em um craquelê. Ele é então mergulhado em um recipiente com tinta – procedimento que pode ser repetido inúmeras vezes, para a obtenção de diferentes tonalidades. Após a secagem, a cera é derretida para que se despregue do tecido já tingido. Os padrões dos desenhos e o ritual envolvido no preparo do tecido variam de acordo com a região e o período em que é produzido, e expressam simbolismos diversos (2).
O aparecimento da imagem criada através do batik guarda uma semelhança com a gênese da imagem fotográfica: a cera de abelha, que atua como isolante no processo de tintura, cria um desenho “em negativo”, que só é “revelado” após a aplicação da tinta. Também na fotografia a imagem só se deixa ver após um banho de produtos químicos – no ato de revelação, reside a idéia de imanência, de significado que se deixa conhecer, em um tempo certo, seguindo etapas determinadas, rituais.
Até a década de 1950, a técnica era desconhecida no Brasil. Na Europa, porém, tornara-se muito apreciada. Em uma viagem a Viena, Eva Lieblich frequentou um curso de batik (3). De volta ao Brasil, ensinou a técnica a Alice e, juntas, começaram a aplicá-la. “Como nós não ficamos muito satisfeitas com os efeitos de cor usando tinturas e com a durabilidade das tintas, começamos a introduzir e a inventar novos métodos”, lembra Alice (4). Logo, substituíram os banhos de tinta pela aplicação com pincéis. A técnica revelou-se para elas uma possibilidade de renovação plástica.
Em 1959, expuseram os tecidos pela primeira vez, na Galeria Antigonovo, em São Paulo. As peças em algodão ganharam estatuto de objetos de arte e foram, aos poucos, inseridas no circuito expositivo (5). Em 1961, ela foi premiada, pelo batik, com a Pequena Medalha de Prata, no Salão de Arte Moderna de São Paulo, e, na edição seguinte do Salão, em 1962, com a Grande Medalha de Prata.
Segundo Alice, tratava-se de uma busca pela “continuidade e não uma ruptura entre a arte oriental tradicional e a ocidental contemporânea” (6). Seus esforços dirigiam-se, portanto, para uma síntese possível, operada pelo batik, de campos comumente considerados opostos.
Mais que isso: retorna em seu texto o incômodo que aparecera na juventude em relação a uma sociedade em que a arte perdeu sua organicidade. Para Alice, que sempre ressaltara a importância de a modernidade olhar para a tradição, recuperar uma técnica antiga nesse momento da evolução das artes no Brasil – com o avanço da arte conceitual e o afastamento dos artistas da técnica – marca sua posição. Na tese, ela critica o “aspecto individualista e liberto de todos os vínculos com as tradições da nossa arte contemporânea em comparação com um sistema conceitual oposto – o universo mítico-religioso da Indonésia, onde o batiktradicional […] se desenvolveu” (7).
Em meados dos anos de 1960, Eva foi viver na Alemanha. Nesse momento, Alice já estava absolutamente envolvida pelo batik. Continuou, sozinha, as pesquisas que vinha realizando com Eva e, em 1968, viajou à Ásia. Ao longo da década, aprimorou sua produção e participou de exposições. As dificuldades, porém, aumentaram com a ausência de Eva, por se tratar de uma técnica essencialmente coletiva. Finalmente, Alice constatou: “[o batik] dá uns efeitos lindos, mas não compensa o artesanato; não tem reconhecimento nem material e nem artístico” (8).
A partir de 1974, Alice modificou mais uma vez o processo, com a introdução de um novo suporte, o papel de arroz japonês, trabalhado com guache – tinta com a qual sempre teve afinidade. Ela introduziu “fatores que ela [a técnica do batik] tradicionalmente não tem: o gestual, o acaso e o grafismo” (9). Como na fotografia, “o desenhista passa a trabalhar […] incentivado pela incerteza do efeito final” (10). A destreza e a feitura manual também encontram paralelos no ofício do fotógrafo e do laboratorista: quando concluídos, os traços de cera não podem ser corrigidos, “exigindo, portanto mão firme” (11).
A arte como imitação, não das aparências externas, mas do processo operativo segundo o qual se estrutura o mundo, é o conceito presente em artes tradicionais como a indonésia. “O princípio pressuposto é o de que o verdadeiro conhecimento de um objeto não é obtido mediante uma simples observação empírica ou o registro de um reflexo, mas apenas quando sujeito cognoscente e coisa conhecida, aquele que vê e a coisa vista, se encontram num ato que transcende toda a distinção”, escreveu Alice (12).
(1) Alice Brill Czapski, Viagens imaginárias: transformação de uma técnica milenar em linguagem contemporânea, São Paulo, Tese de doutorado apresentada à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, 1994.
(2) Ibidem, pp. 30-31.
(3) Durante entrevista com Eva Lieblich e Alice Brill, pude ver um livro alemão, adquirido por Eva na Europa, que ensina batik, entre outras atividades manuais “para meninas”. Em 1957, ele já estava na 21ª edição, de onde se pode depreender como o artesanato era difundido na cultura alemã. (Ruth Zechlin, Werkbuch für Mädchen, Ravensburg, Otto Maier Verlag, 1957, 21 ed.).
(4) Depoimento de Alice Brill à Galeria de Arte Alberto Bonfiglioli. São Paulo, 1975, p. 2. Acervo pessoal de Alice Brill.
(5) No final dos anos de 1950 e ao longo da década seguinte, Alice e Eva expuseram batik em outras galerias paulistanas, em Punta del’Este, no Uruguai, e em Sttutgart, na Alemanha. Alice Brill Czapski, op. cit. , p. 42.
(6) Ibidem, p. 26.
(7) Ibidem, p.19.
(8) Depoimento de Alice Brill à Galeria de Arte Alberto Bonfiglioli. São Paulo, 1975, p. 2. Acervo pessoal de Alice Brill.
(9) Alice Brill Czapski, op. cit. , p. 175 (grifo meu).
(10) Ibidem, p. 48.
(11) Alice Brill, “Batik: antiga arte javanesa”, em Galeria de Arte Saci, Pinturas e batiks de Alice Brill, Itu, Galeria de Arte Saci, 1965.
(12) Alice Brill Czapski, op. cit., p. 65.
*Trabalho de conclusão de curso em Jornalismo, pela ECA/USP, finalizado em 2008
Daniel Alarcon é jornalista formada pela Escola de Comunicações e Artes da USP, onde desenvolveu pesquisa de iniciação científica sobre a fotografia de Alice Brill, sob orientação de Boris Kossoy e com bolsa FAPESP. Entre outras atividades, colaborou com a Revista da Associação dos Docentes da USP, atuou como assistente de comunicação da Campanha Latinoamericana pelo Direito à Educação e como assessora de comunicação do Fórum Internacional da Sociedade Civil preparatório à VI Conferência Internacional de Educação de Adultos, da UNESCO. Atualmente, trabalha com mulheres do campo e da floresta, na Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres da Presidência da República, em Brasília.
Mantém o blog CANDANGAS de onde foi transcrito este texto
http://candangas.wordpress.com/2010/03/10/alice-brill-exposicao-de-batiks-em-sp/
Sobre a fotografia de Alice Brill
http://www.blogdoims.com.br/ims/alice-brill-1920-2013/