Sumi-ê de Nydia Bonetti
Os poemas de Sumi-ê, de Nydia Bonetti, inventam um jardim, que não é o zen japonês, mas tenta simulá-lo, com...
Revista digital de Arte e Cultura
Um espetáculo simples, singelo, intimista, para pouca gente, com músicas antigas... Mas forte, cativante, comovente, que mexe com sentimentos como amor, saudade e esperança. Assim foi "Interior", do Grupo Bagaceira de Teatro, de Fortaleza (CE), apresentado na noite de 26 de fevereiro de 2016, no Centro Cultural Casarão, penúltimo espetáculo adulto deste nosso 12º Feverestival - Festival Internacional de Teatro de Campinas.
Escrito por Rafael Martins e dirigido por Yuri Yamamoto, o espetáculo é fruto de uma pesquisa de dois anos do grupo por quatro cidades do estado do Ceará (Beberibe, Icó, Itarema e Tauá). Nessa imersão o grupo encontrou brincantes de reisado, dramistas, atores de teatro e índios. Um processo muito especial para o grupo, que teve como parceiros o ator do Theatre Du Soleil, Maurice Durozier e atriz e diretora paulista Georgette Faddel. Como seria impossível dar conta de tantas histórias lindas, o grupo resolveu trazer para a cena duas velhinhas (interpretadas pelas atrizes Samya de Lavor e Tatiana Amorim) que insistem em dizer "não" à morte. O resultado é um espetáculo irreverente e ao mesmo tempo singelo. Cheio de afeto, que nem o bolo das avós.
Aliás, as avós são um dos temas principais da peça. Uma das velhinhas, de idade indeterminada, é avó da outra, que diz ter 97 anos. "Uma menina, não completou nem 100 anos ainda", diz a mais velha em um determinado momento divertido do espetáculo. A velhinha mais velha, segundo a mais nova, já morreu e foi enterrada várias vezes, mas sempre sai da cova e insiste em continuar por aqui por amor à vida. As personagens sentam no meio do público, dividido em duas arquibancadas, uma de frente pra outra, com luzinhas penduradas em cima, formando um pequeno corredor no meio delas. Nelas cabem em torno de 60 pessoas, mas ontem, em cada uma das duas sessões, colocaram uma arquibancada ao fundo para acomodar mais 30 pra tentar atender o máximo de interessados.
As velhinhas, tipicamente nordestinas, são falastronas e engraçadas- especialmente a que se recusa a morrer , conversam com o público e entre si e até brigam em uma cena hilária. Logo no início, uma delas pede para que as pessoas escrevam em um bloco o nome de suas avós e a cidade na qual elas nasceram, dobrem o papel e coloquem em uma caixinha. Mais para o final do espetáculo, essa caixinha será aberta e alguns dos papéis lidos. Elas perguntam "quem é a neta ou neto da dona fulana". E pedem pra pessoa dizer qual recordação tem da avó, se está viva ou morta. Também perguntam se alguém tem foto da avó na carteira ou no celular. E alguns celulares chegaram até elas com as fotos de avós, mostradas para todo público.
Em vários desses momentos me bateu muita saudade da minha avó Maria Vissoto Leite, morta há quase 8 anos, aos 91 anos. E pude constatar, olhando rapidamente entre a plateia, que não fui só que fiquei emocionado por esse tipo de lembrança.
Igualmente tocante a pergunta de uma delas, endereçada a várias pessoas da plateia, de o que estaremos fazendo daqui a 50 anos. As personagens/atrizes (em alguns momentos elas saíam das personagens) disseram que estarão dançando/atuando. Como havia muitos atores/atrizes entre o público presente, muitos deram a mesma resposta. Eu disse que pretendo (aos 93 anos) estar "cantando". Mas depois pensei que poderia ter respondido "voando"...Ao final, uma cantoria e danças típicas celebraram a memória e homenagearam os artistas e a cultura do interior do Brasil sob aplausos calorosos de um público visivelmente emocionado e feliz com o que acabara de ver e ouvir em pouco mais de uma hora desse belo espetáculo.
Para saber mais sobre o Feverestival - seus inicios e edições anteriores:
http://www.feverestival.com.br/#!edi--es-anteriores/run8a
http://www.feverestival.com.br/#!sobre-o-12o-feverestival/shd11
Para saber mais sobre Centro Cultural Casarão
https://centroculturalcasarao.wordpress.com/
Danilo Leite Fernandes, 43 anos, é graduado há 20 anos em Jornalismo na ECA-USP e há 7 anos é repórter e editor de Cultura da Rádio Educativa de Campinas FM, emissora da qual foi um dos fundadores em 1999.