Três Tesouros Perdidos

Flávio Corrêa de Mello


Machado de Assis é um ótimo instrumento de aprendizado para quem se inicia no hábito de escrever contos. Em toda extensão, sua obra revela as qualidades necessárias para um autor principiante refletir e tomar como norte, exemplo a seguir. Ele é mestre. Domina as técnicas narrativas. Maturou-as na leitura dos clássicos, na leitura de seus contemporâneos, na leitura atenta e antenada, no respeito pela tradição compreendendo-a como uma forma de continuidade e inovação. Nada é desproposital. Há escolhas e decisões: a apresentação das personagens, a estrutura da narrativa, o ponto de vista do narrador, a manipulação do tempo, o desenvolvimento da intriga, a acuidade artesanal da composição dos personagens, os adereços que os compõem, a ambientação do cenário. Tudo muito bem amarrado, encadeado.
Em Três Tesouros Perdidos, publicado inicialmente em 1858, Machado, que ainda contava com apenas dezenove anos, já delineava o apuro e o corte literário que nos seduz até os dias atuais. Mesmo sendo de um momento inicial de sua carreira literária, podemos perceber no texto a ironia que permeará toda sua obra e a clareza das imagens aliadas à economia das palavras bem escolhidas e bem dispostas. O pequeno conto trata de uma traição amorosa. Logo na abertura ele nos situa de tal modo que acompanhamos os passos da personagem através do narrador: “Uma tarde, eram quatro horas, o Sr. X... voltava à sua casa para jantar. O apetite que levava não o fez reparar em um cabriolé que estava parado à sua porta. Entrou, subiu a escada, penetra na sala e ... dá com os olhos em um homem que passeava a largos passos como agitado por uma interna aflição.”

Como vimos acima, Machado dispõe os ingredientes necessários para seduzir o leitor e incentivá-lo a continuar a leitura. Define o tempo cronológico: quatro horas. O cenário da história: a casa do Sr. X. Nos dá estados emocionais dos dois personagens: Senhor X: apressado e com fome; o outro, que ainda não é nomeado, mas que já é caracterizado como instável, agitado. Além disso, o narrador nos guia espacialmente, desde a saída do cabriolé até o interior da casa. Nós temos uma gama de informações em apenas quatro linhas. Tamanha economia não se dá à toa, a abertura é uma das chaves mais importantes para definir se o conto será bom ou não. Embora não seja uma obrigatoriedade, ela deve ter em seu bojo a capacidade de nos informar e de nos preparar para a história, anunciando o que virá a seguir, a intriga.Diferente do romance, o conto prima pela exclusão. Excluem-se diversos elementos alusivos para apenas concentrarmos-nos em uma única problemática. No caso de três tesouros perdidos o cerne é a traição através do espírito do marido traído:

- Senhor, eu sou F..., marido da senhora Dona E...
- Estimo muito conhecê-lo, responde o Sr X...; mas não tenho a honra de conhecer a senhora Dona E...
- Não a conhece! Não a conhece! Quer juntar a zombaria à infâmia?
- Senhor!...
E o Sr. X deu um passo para ele.
- Alto lá!
O Sr. F tirando uma pistola do bolso, continuou:
- Ou o senhor há de deixar esta corte, ou vai morrer como um cão.
- Mas, senhor, disse o Sr. X...., a quem a eloquência do Sr. F... tinha produzido um certo efeito, que motivo tem o senhor?
- Que motivo! É boa! Pois não é motivo andar o senhor fazendo a corte à minha mulher?

Machado explora o recurso do diálogo para deslindar o cerne do conto: a traição. Assim, ao dar voz aos personagens, vai rapidamente a um dos pontos da trama: como o Sr. F, o traído, tenta resolver a situação propondo a saída imediata do possível traidor, o Sr. X. Além dos diálogos é interessante perceber que nesta passagem o narrador pouco se interpõe ou opina Machado o utiliza diretamente na passagem “E o senhor X deu um passo para ele.” e “O senhor. F tirando uma pistola do bolso continuou:” e indiretamente, por dentro do personagem no trecho “a quem a eloquência do Sr. F... tinha produzido um certo efeito...” .

Saber que podemos optar pelo diálogo ou pelo narrador para elucidar alguma passagem também é uma das ferramentas necessárias para o sucesso de nossa história. Neste conto Machado ainda não esmiuçava o narrador e suas potencialidades, ainda ensaiava os seus primeiros passos no mundo da literatura. Mas, certamente, ele observava, lia muito. Um exercício interessante é montarmos dois paralelos ao escrevermos um conto. Em um primeiro plano, escrevemos a história na primeira ou na terceira pessoa, apenas a narramos. Em um segundo, vamos elaborar diálogos em cima da mesma temática. Por fim, cruzamos a narrativa e os diálogos, eliminando os excessos, percebendo em qual passagem a narrativa adere melhor e vice-versa. É trabalhoso, mas quem disse que escrever não é fruto de muito trabalho?

Outro aspecto importante é o de que nada deve ser gratuito. Tanto em prosa quanto em poesia não se pode jogar no papel personagens ou situações que não tenham resoluções ou propriedades, mesmo quando a escrita se apresenta pelo impulso do pulso na página, pelo caminho da “palavra puxa palavra”. Amarrar o texto, não antecipar o término, encaixar as partes, mesmo as díspares, para que haja um sentido de completude e de prazer máximo para o leitor. Muitas vezes essa sensação se dá pelo ritmo do texto ou pela dissonância polissêmica, mas ainda assim temos que saber se as palavras estão onde realmente deveriam estar. Reler as frases, os versos, inverter a ordem. Ver palavra por palavra. No conto de Machado de Assis há uma passagem que nos remete ao aparecimento de um personagem, o moleque, que se permanecesse somente ali não teria nenhuma função. Para melhor compreensão, vamos retomar o fio da meada da história. O Sr. F acusa o Sr. X de estar cortejando sua esposa, a senhora Dona E. Ele deixa duas opções ao Sr. X, a pistola ou deixar a corte. Obviamente que o Sr. X opta pela segunda. Previdente, o marido traído provém o Sr. X com uma quantia necessária para a viagem e gastos extras. Nesse momento, X chama o moleque para deixar instruções durante sua ausência:

“O Sr. X ficou por alguns instantes pensativo. Não podia acreditar nos seus olhos e ouvidos; pensava sonhar. Um engano trazia-lhe dois contos de réis, e a realização de um de seus mais caros sonhos. Jantou tranquilamente, e daí a uma hora partia para a terra de Gonzaga, deixando em sua casa apenas um moleque encarregado de instruir, pelo espaço de oito dias, aos seus amigos sobre o seu destino.”

O conto caminha para seu desfecho e nos sete parágrafos seguintes tomamos ciência de que o traidor não era o Senhor X e sim um amigo do Sr. F, nomeado como Sr. P, Capitão da Marinha. Nesse ponto, ciente de seu erro, de sua falha e de sua cegueira, nosso marido traído retorna a casa do Sr. X:

“Desesperado, fora de si, o Sr. F... lança-se a um jornal que perto estava: o paquete tinha partido às oito horas.

- Era P... que eu acreditava meu amigo... Ah Maldição! Ao menos não percamos os dois contos! Tornou a meter-se no cabriolé e dirigiu-se a casa do Sr. X... subiu; apareceu o moleque.


- Teu senhor?


- Partiu para Minas.”

Aqui vemos a retomada do moleque participando ativamente do desfecho. Como disse Tchekhov: “Nunca coloque uma pistola em um cenário se não for usá-la”.

Nos dois últimos parágrafos Machado remonta o título da história, os três tesouros perdidos pelo Sr. F: A esposa, o amigo e os dois contos de réis:

“- perdi três tesouros a um tempo: uma mulher sem igual, um amigo a toda a prova e uma linda carteira cheia de encantadoras notas... que bem podiam aquecer-me as algibeiras!...”

Dedicado' aos alunos da Oficina Literária Centro em Crônicas


Flávio Corrêa de Mello carioca criado na Tijuca é professor de português, orienta oficinas literárias e vende livros. Viajou já pelo mundo, morou na Europa ilegal na Suíça. Dai saiu o livro Poemas Suíços, escritos diversos publicados em revistas várias entre elas: Inimigo Rumor, Entrelivros e Bagatelas. Para saber mais sobre ele e seu trabalho veja seu blog Rio Movediço

 

http://riomovedico.blogspot.com.br/

Para saber mais sobre Machado de Assis:

http://www.machadodeassis.org.br/?q=from_deote_Dod

 

 

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